Apesar de sua importância histórica, o desenho não é protegido por tombamento e não conta com um programa específico de preservação ou restauro. Segundo pesquisadores, a falta de incentivos e a substituição por materiais mais baratos colocam em risco a permanência do padrão nas ruas da cidade.

Mirthes morreu em 2020, aos 86 anos, sem receber o reconhecimento público proporcional à popularidade de sua criação ou compensação financeira pelo uso do desenho.

A 'Copacabana' paulistana

Com 60 anos de história, piso paulista tem sobrevivência ameaçada — Foto: Arquivo pessoal/Pablo Figueiredo

A história do piso paulista começou durante a gestão do prefeito Brigadeiro José Vicente Faria Lima, que administrou São Paulo entre 1965 e 1969.

A proposta era criar uma identidade visual própria para a cidade, inspirada em símbolos urbanos como o calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro, e as colunas de Brasília.

Segundo Pablo Figueiredo, mestre em Design pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), a escolha das calçadas como elemento de identidade fazia parte de um projeto de modernização da imagem da capital.

Em meio à histórica rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro, a iniciativa chegou a ser apresentada como uma resposta paulista ao famoso calçadão de Copacabana.

"Desde as primeiras manifestações do prefeito Faria Lima, o calçadão foi citado como referência", afirma o pesquisador.

A comparação, porém, revela uma diferença importante na forma como as duas cidades preservaram esses símbolos. Enquanto o calçamento de Copacabana, redesenhado pelo paisagista Roberto Burle Marx, recebeu proteção patrimonial, o piso paulista permanece sem tombamento.

Da pedra portuguesa ao ladrilho hidráulico

Ao longo de seis décadas, o piso passou por transformações. Originalmente produzido com pedras portuguesas, o desenho ganhou uma versão em ladrilho hidráulico, que se popularizou nas calçadas e até em residências.

A mudança teve razões econômicas e práticas.

"Na versão de ladrilho hidráulico, muitas residências também passaram a adotá-lo, porque a pedra portuguesa é um revestimento mais caro, principalmente pela instalação. Já o ladrilho hidráulico representava uma alternativa mais acessível", explica Pablo.

Mas o custo não foi a única justificativa para a substituição.

Durante a primeira gestão do prefeito Paulo Maluf, entre 1969 e 1971, parte das calçadas de pedra portuguesa recém-instaladas foi retirada para dar lugar ao ladrilho hidráulico.

Na época, a prefeitura alegou que as pedras se soltavam com facilidade e exigiam manutenção complexa. Também foram apontados problemas de acessibilidade e até o risco de o revestimento prender e quebrar saltos altos.

"Durante a gestão de Paulo Maluf, ele mandou retirar boa parte do mosaico português recém-instalado para substituí-lo pelo ladrilho hidráulico. Sob a perspectiva financeira, a prevenção de custos futuros de manutenção pode ter sido uma motivação, mas não necessariamente uma economia inteligente naquele momento, visto que as calçadas removidas eram novas", afirma Pablo.

Atualmente, as normas de acessibilidade determinam que as calçadas tenham superfícies regulares, firmes e estáveis. Em princípio, tanto a pedra portuguesa quanto o ladrilho hidráulico podem atender a essas exigências, desde que sejam corretamente instalados e conservados.

O problema é que a realidade das ruas nem sempre acompanha as normas.

Em diferentes pontos da capital, é possível encontrar calçadas com ladrilhos soltos, quebrados ou ausentes. Além de dificultar a circulação dos pedestres, essas condições representam obstáculos especialmente para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

A falta de manutenção também compromete o próprio desenho. Em muitos trechos, o contorno do estado de São Paulo é interrompido por peças colocadas de maneira improvisada, sem respeitar o padrão original.

Piso paulista não é tombado como patrimônio cultural, por isso não há preservação ou restauro — Foto: Arquivo pessoal/Pablo Figueiredo

O piso paulista pode desaparecer?

Para Pablo Figueiredo, o desaparecimento do piso paulista é um risco real, embora o desenho ainda esteja presente em diferentes regiões da cidade.

Segundo o pesquisador, a versão original em pedra portuguesa já praticamente desapareceu. A versão em ladrilho hidráulico, por sua vez, continua difundida, mas enfrenta uma tendência de substituição por outros materiais.

"O padrão adaptado em ladrilho hidráulico ainda é amplamente difundido em São Paulo, mas nota-se uma tendência contrária à sua expansão e preservação. O risco de extinção existe", afirma.

Não há conhecimento público de um levantamento que identifique todos os endereços onde o piso paulista ainda está preservado, seja em pedra portuguesa, seja em ladrilho hidráulico.

Um dos principais obstáculos à conservação é o custo. Em São Paulo, a manutenção das calçadas é, em regra, responsabilidade dos proprietários dos imóveis, que também precisam seguir as normas municipais de acessibilidade.

Nesse cenário, o concreto se tornou uma alternativa mais simples e econômica.

"O piso de concreto liso acaba sendo a opção padrão. Ele atende às diretrizes municipais de acessibilidade com menor custo de instalação e conservação. Assim, a falta de incentivos e a pouca consideração do padrão nas diretrizes atuais corroboram para esse cenário de perda gradual", explica Pablo.

Sem políticas específicas de incentivo ou preservação, a continuidade do desenho depende tanto da decisão dos proprietários quanto da iniciativa do poder público de utilizá-lo em novas obras e reformas.

Além do risco de desaparecimento do revestimento, a substituição gradual do piso também pode representar a perda de um elemento que ajudou a construir a identidade visual de São Paulo.

O que diz a Prefeitura de São Paulo

O piso paulista não conta com um programa específico de preservação ou restauro, segundo a Prefeitura de São Paulo.

"A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa (SMC), por meio do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), informa que o piso em questão não é tombado como patrimônio cultural. Também não há processo ou pedido específico de tombamento. Por isso, atualmente não existe programa específico de preservação ou restauro."

*Sob supervisão de Alexandre Bazzan.

Source: G1

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