Segundo a Polícia Federal, Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa teria obtido pelo menos R$ 15 milhões com a venda do entorpecente retirado do depósito da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), em Campo Grande. A investigação também aponta que ele acumulou veículos, uma mansão de alto padrão no condomínio Alphaville, na Capital, e um sítio em Pirenópolis, em Goiás.

O g1 tentou contato com a Polícia Civil e a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp), mas não obteve retorno.

Para evitar que os desvios fossem descobertos, o grupo teria desenvolvido um método para substituir a cocaína retirada por outra de qualidade muito inferior. A droga original, com alto grau de pureza, era trocada por uma mistura adulterada, com cerca de 10% ou menos de cocaína, segundo a PF.

O caso é um dos principais pontos da Operação Ifrit, deflagrada nesta quarta-feira (4) em sete estados. A investigação também apura a participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e de um policial rodoviário federal de Mato Grosso no esquema.

Cocaína de baixa pureza era usada para substituir droga apreendida

Delegado de MS, Hoffman D’Ávila, é suspeito de usar a própria polícia para desviar 2 toneladas de cocaína — Foto: Reprodução/ PF

De acordo com a Polícia Federal, o delegado teria facilitado a entrada de integrantes da organização criminosa na Denar e no depósito onde ficavam armazenadas drogas apreendidas por forças de segurança, como Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal.

A investigação aponta que, em diferentes ocasiões, a cocaína de maior qualidade era retirada do estoque e comercializada pelo grupo. Para que a diferença não fosse percebida, os criminosos colocavam no lugar uma versão adulterada, com teor de cocaína de aproximadamente 10% ou menos.

Segundo a PF, a mistura continha substâncias como amido de milho, aglutinantes e fermento. O grupo também teria reproduzido a identificação visual das embalagens originais e realizado testes para que a droga substituta apresentasse reação semelhante à cocaína em exames preliminares.

Com isso, a cocaína adulterada era colocada no lugar do entorpecente apreendido. Depois, o material substituído era encaminhado para destruição, conforme a investigação, pelo próprio delegado.

A PF afirma ter encontrado conversas, vídeos e imagens que mostram integrantes da organização manipulando a droga e entrando nas dependências da Denar.

A estratégia teria explorado uma falha no controle do estoque: segundo os investigadores, não havia fiscalização rigorosa sobre o grau de pureza da cocaína armazenada. A identificação feita pelos órgãos responsáveis verificava a presença da substância, mas não permitia acompanhar com precisão sua concentração.

Delegado teria acumulado mansão, fazenda e milhões de reais

A investigação estima que Hoffman tenha vendido cada quilo da cocaína desviada por valores entre R$ 8,5 mil e R$ 10,5 mil. Ao longo de aproximadamente dois anos, o valor obtido teria chegado a pelo menos R$ 15 milhões.

Além do dinheiro, a PF aponta que o delegado acumulou patrimônio incompatível com a origem dos recursos investigados, incluindo:

  • Uma mansão de alto padrão no condomínio Alphaville, em Campo Grande;
  • Um sítio em Pirenópolis, em Goiás;
  • Inúmeros veículos;
  • Pelo menos R$ 15 milhões obtidos, segundo a investigação, com a venda da cocaína desviada.

A investigação também identificou movimentação financeira superior a R$ 500 milhões em dois anos por meio da organização criminosa. Esse valor, porém, corresponde ao movimento financeiro atribuído ao grupo como um todo, e não exclusivamente ao delegado.

Policiais facilitavam acesso à droga e repassavam informações

A PF identificou a participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e de um policial rodoviário federal de Mato Grosso. Segundo a investigação, os servidores recebiam dinheiro ou bens em troca de informações sigilosas sobre rivais da organização.

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Os agentes também são suspeitos de ajudar o grupo a ter acesso a drogas apreendidas e armazenadas em unidades policiais. As informações repassadas de dentro das corporações eram usadas para acompanhar movimentos de pessoas, veículos e locais de interesse dos criminosos.

Na entrevista sobre a operação, o superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul,Carlos Henrique Cotta Dangelo, afirmou que a participação dos agentes públicos identificada até aquele momento estava relacionada principalmente ao favorecimento do acesso aos entorpecentes e ao fornecimento de informações internas.

"Então, a participação dos agentes públicos é nesse sentido, de retirada de droga das unidades policiais e de favorecimento aos criminosos com informações de dentro das polícias", afirmou.

O superintendente também explicou que a organização conseguia obter drogas tanto de países vizinhos quanto de apreensões realizadas pelas próprias forças de segurança.

"Ela tinha que ter acesso a esse material ilícito. E ela obtinha tanto dos países vizinhos, como se valendo, por vezes, de apreensões realizadas pelas próprias forças de segurança do Estado. Elas tinham acesso a esse material e recolocavam isso para o comércio", disse.

Delegado já estava preso e recebeu nova ordem de prisão

Nesta quarta-feira (4), o delegado foi novamente alvo de mandado de prisão preventiva e de medidas de busca e apreensão na Operação Ifrit. Como já estava sob custódia por causa de outro procedimento, foi encaminhado à unidade prisional após o cumprimento da nova ordem judicial.

Em nota, a defesa informou que ainda não teve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova prisão nem às provas que embasaram as medidas.

Por isso, os advogados afirmaram que consideram prematuro comentar o mérito das acusações. A defesa disse que vai analisar o material assim que tiver acesso ao procedimento e adotar as medidas processuais cabíveis.

Também ressaltou que prisões cautelares e medidas investigativas não representam uma condenação e que os fatos devem ser examinados durante o devido processo legal, com garantia do contraditório e da ampla defesa.

Outro policial civil também foi alvo

O policial civil Douglas Tobias, preso em setembro durante a Operação Infiltrados, também foi alvo de mandados na Ifrit.

A defesa informou que acompanhou o cumprimento da busca e apreensão, mas ainda não teve acesso à decisão judicial nem ao conteúdo do inquérito.

Em nota, o advogado Luiz Renê afirmou que Douglas está à disposição para prestar esclarecimentos.

"De todo modo, Douglas Tobias mais uma vez demonstrou se tratar de pessoa idônea, profissional exemplar e que nada tem a esconder, estando à disposição para prestar esclarecimentos e esperando que se faça justiça", declarou.

Operação investiga grupo familiar ligado ao PCC

A Operação Ifrit mira uma organização criminosa comandada, segundo a PF, por um núcleo familiar formado por três irmãos, filhos e outros parentes. O grupo é investigado por tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro e crimes violentos.

A principal área de atuação era a fronteira entre Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai. A organização também atuava em outros estados e mantinha rotas internacionais, com drogas obtidas na Bolívia, no Peru e no Paraguai e enviadas para cidades brasileiras e países da Europa, principalmente Espanha e Portugal.

A operação cumpre mandados em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. A Justiça autorizou 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e um de prisão temporária, além de medidas de monitoramento eletrônico e afastamento de três policiais civis de Mato Grosso do Sul.

As investigações apontam que a organização usava armas pesadas e violência para controlar territórios, com registros de sequestros, torturas, atentados e homicídios.

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Source: G1

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