De receitas de família a tradições centenárias: relembre as histórias que revelam a riqueza cultural de Itapecerica

Série do g1 reuniu nove reportagens que contam histórias de personagens, manifestações culturais e iniciativas que mantêm vivos os saberes de Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas.


  • O portal g1 Centro-Oeste publicou uma série de 9 reportagens especiais sobre a identidade cultural de Itapecerica. O projeto destacou a preservação de tradições locais.

  • A série relembrou a história de Dona Nem, de 103 anos. Também destacou os 200 anos do Reinado e a produção da Cachaça do Mudo, iniciada em 1946.

  • A Corporação Musical Nossa Senhora das Dores, do século 19, foi retratada. A Fazenda Palestina transformou uma antiga senzala em memorial sobre a escravidão.

  • Uma criação de ovelhas uniu turismo e gastronomia no campo. Além disso, a cozinheira Edna Ribeiro resgatou receitas de família e as publicou na internet.

  • O comércio de produtos da Fazenda Laranjo e o Café Cumbré, de Letícia Barros, mostraram como novos negócios rurais preservam os saberes herdados por gerações.

A história de uma cidade não está apenas nos documentos, nas construções antigas ou nos acontecimentos que marcaram o passado. Ela também vive nas lembranças de quem atravessou gerações, nas festas que se repetem há séculos, nas receitas guardadas em cadernos, nos sons que ecoam pelas ruas e nos conhecimentos transmitidos dentro das famílias.

Em Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas Gerais, essas histórias se encontram em uma identidade cultural construída ao longo do tempo e que continua sendo preservada por quem mantém suas tradições vivas.

Foi a partir desse olhar que o g1 Centro-Oeste publicou, aos domingos, a série Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias. Ao longo de nove reportagens, o projeto apresentou personagens, manifestações culturais, espaços históricos e iniciativas que ajudam a contar a trajetória do município. Da memória de Dona Nem, aos 103 anos, à produção de café especial, passando pelo Reinado de Nossa Senhora do Rosário, pela música, pela cachaça e pela culinária da roça, cada episódio revelou uma parte desse patrimônio.

Uma vida que atravessa dois séculos de história

Dona Nem tem 103 anos de idade e mora em um casarão bicentenário em Itapecerica — Foto: Anna Lúcia Silva/g1

A primeira reportagem apresentou Dona Nem, que, aos 103 anos, vive cercada por lembranças em um casarão de Itapecerica com cerca de dois séculos de história. A personagem conduziu o público por uma narrativa em que a memória individual se encontra com a trajetória da cidade.

O episódio também destacou a relação entre pessoas, espaços e lembranças, mostrando como uma casa antiga pode guardar muito mais do que objetos e paredes: ela preserva histórias familiares, hábitos e modos de viver que ajudam a compreender diferentes épocas.

O Reinado do Rosário: fé, ancestralidade e resistência

Reinado de Itapecerica — Foto: Anna Lúcia Silva/g1

A matéria mostrou como guardas, famílias e integrantes da irmandade mantêm viva uma tradição profundamente ligada à história da população negra. Mais do que uma celebração religiosa, o Reinado é também uma expressão de ancestralidade, pertencimento e resistência, em que os rituais e os cantos ajudam a preservar uma memória coletiva.

Cachaça do Mudo: quatro gerações ligadas ao mesmo saber

Cachaça do Mudo produzida em alambique de Itapecerica ganhou o Brasil e chegou a ser exportada para a Suíça — Foto: Anna Lúcia Silva/g1

A terceira reportagem apresentou a história da Cachaça do Mudo, uma tradição familiar iniciada em 1946 e que atravessou gerações. A trajetória de Antônio Lopes de Lima, conhecido como Mudo, e de seus familiares mostrou como o conhecimento sobre a produção da bebida foi transmitido e adaptado ao longo do tempo.

O que começou com uma produção artesanal ligada à fabricação de rapadura se transformou em uma atividade que incorporou mudanças nos equipamentos, na capacidade produtiva e nas exigências do mercado. A continuidade do negócio pela família, agora também com a participação de integrantes da quarta geração, revelou como tradição e adaptação podem caminhar juntas.

Banda que mantém a música viva há mais de dois séculos

Durante gerações, música e religião caminharam juntas em Itapecerica — Foto: Anna Lúcia Silva/g1

Com uma trajetória que remonta ao início do século XIX, a banda representa a continuidade de um saber que depende da transmissão de conhecimentos musicais, da participação dos integrantes e do envolvimento da comunidade. A permanência da corporação ao longo de mais de dois séculos mostra como a música pode se tornar parte da identidade de um município.

Mais do que partituras e apresentações, essa história é feita de pessoas que aprendem, ensinam e mantêm uma prática coletiva que conecta diferentes gerações.

Antiga senzala transformada em memorial

Casarão do Hotel Fazenda Palestina em Itapecerica, onde no porão havia uma senzala — Foto: Anna Lucia Silva/g1

O episódio chamou a atenção para a importância de conservar espaços que ajudam a compreender períodos dolorosos da formação histórica brasileira. Ao transformar o local em espaço de memória, a iniciativa contribui para dar visibilidade às experiências das vítimas da escravidão e para estimular uma reflexão sobre o passado.

Preservar esse patrimônio exige reconhecer a violência que marcou sua origem. A história do lugar não se limita à arquitetura ou à antiguidade da construção: ela também passa pelas vidas e pelas experiências humanas que precisam ser lembradas.

Da criação de ovelhas a uma experiência de turismo e gastronomia

Propriedade em Itapecerica se dedica à criação de ovelhas — Foto: Anna Lúcia Silva/g1

A iniciativa amplia o olhar sobre a produção rural e demonstra como as atividades do campo podem se relacionar com a experiência dos visitantes, a valorização dos alimentos e a construção de novas possibilidades de renda. O contato com a propriedade e com os produtos também aproxima o público dos processos de produção e dos conhecimentos que fazem parte da vida rural.

O episódio revelou uma maneira de preservar vínculos com o campo enquanto se criam novas formas de apresentar seus sabores e suas práticas a outras pessoas.

Receitas de família que atravessam gerações

Edna Ribeiro ensina receitas de infância na internet - Itapecerica — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Entre os exemplos estão o bolinho de taioba, o Biscoito Pinguinho e o bolo d'água, receitas que carregam referências da cozinha da roça e dos hábitos alimentares de outros tempos.

Ao levar esse conhecimento para a internet e organizar as preparações em um livro digital, Edna encontrou uma forma de compartilhar o que aprendeu e ampliar o alcance dessas memórias. O que antes circulava principalmente entre familiares passa a alcançar outras pessoas, mantendo vivos sabores e modos de fazer que poderiam se perder com o tempo.

Da roça ao centro da cidade

Fazenda Laranjo em Itapecerica — Foto: Anna Lúcia Silva/g1

A iniciativa reúne produtos cultivados e preparados pela própria família e transforma o trabalho no campo em uma oportunidade de geração de renda. Ao mesmo tempo, estabelece uma ligação entre quem produz e quem consome, valorizando a origem dos alimentos e os conhecimentos envolvidos em sua produção.

A história mostra que a tradição rural não precisa permanecer restrita às propriedades. Ela pode ocupar novos espaços, conquistar consumidores e continuar ligada às pessoas que cultivam a terra e preservam os saberes herdados.

Do cafezal à xícara: a tradição ganha uma nova marca

Letícia estudou sobre o café produzido pelo avô em Itapecerica e descobriu qualidade especial do grão — Foto: Letícia Barros/Divulgação

A história mostra como um conhecimento familiar pode ganhar novos caminhos quando uma nova geração investe em qualidade e identidade própria. Antes de lançar a marca, Letícia dedicou cerca de um ano e meio aos estudos relacionados à qualidade do café e contou com apoio técnico para desenvolver o projeto.

A iniciativa também evidencia a importância da produção cafeeira para a economia rural e o potencial de agregar valor ao produto por meio do conhecimento sobre cultivo, qualidade e comercialização.

Entre o trabalho do avô e o projeto da neta, o café se transforma em elo entre gerações. A tradição permanece, mas passa a ser apresentada de outra maneira, aproximando a história da família de consumidores interessados em conhecer a origem do que chega à xícara.

Histórias que continuam sendo contadas

Ao reunir essas trajetórias, Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias percorreu diferentes dimensões da identidade do município. A série apresentou a memória de uma mulher centenária, a força de uma manifestação religiosa de origem afro-brasileira, a continuidade de uma produção familiar, a preservação de um espaço marcado pela escravidão, a permanência de uma tradição musical e as transformações da gastronomia e da produção rural.

São histórias diferentes, mas que se encontram em um ponto essencial, na memória que permanece viva quando existem pessoas dispostas a preservá-la, compartilhá-la e transmiti-la.

Em Itapecerica, esse trabalho acontece nos quintais, nas cozinhas, nas propriedades rurais, nos espaços históricos, nas celebrações religiosas e nos ensaios de uma banda que atravessa gerações. Está também na decisão de registrar uma receita, investir na qualidade de um produto ou transformar um lugar de memória em espaço de reflexão.

Ao chegar ao fim, a série deixa um convite para olhar a cidade para além de seus pontos conhecidos. Cada tradição tem uma história; cada receita guarda um aprendizado; cada som carrega lembranças. E cada geração tem a responsabilidade e a oportunidade de decidir o que será transmitido às próximas.

Porque os sabores, os sons e as memórias de Itapecerica não pertencem apenas ao passado. Eles continuam sendo construídos por quem vive a cidade e mantém sua história em movimento.

Leia todas as reportagens da série:

VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas

Source: G1

At a glance

Topic
World
Country
🇧🇷 BR
Publisher language
PT
Added to Allnira