🛩️ 60 segundos de ponta-cabeça

A-29 Super Tucano de ponta-cabeça — Foto: Esquadrilha da Fumaça

O A-29 Super Tucano é usado para realizar manobras acrobáticas em mais de 50 demonstrações anuais da Esquadrilha da Fumaça pelo Brasil e no exterior. O capitão André Nery Lima Bezerra, de 35 anos, afirmou que não é todo avião que é projetado, por exemplo, para voar de cabeça para baixo.

"Nem toda asa [de avião] é capaz de, estando de cabeça para baixo, gerar a sustentação necessária para garantir o voo da aeronave, então a estrutura da asa tem que ser projetada e desenhada para que, de cabeça para baixo, ela consiga gerar a sustentação que vai fazer a aeronave voar", explicou.

Para a aeronave voar de cabeça para baixo, o sistema de alimentação de combustível, por exemplo, precisa ser alterado. "É importante que o tanque de combustível possa coletar combustível ao invés de na parte debaixo, igual ao tanque do carro, na parte de cima do tanque porque, quando o voo inverte, o líquido vai inverter de lado, então ele vai para a parte de cima e tem que ter um coletor de combustível."

Segundo ele, o manual da aeronave aponta informações sobre as limitações. "A nossa, por exemplo, apesar de voar muito bem e ser extremamente manobrada de cabeça para baixo, ela não pode voar infinitamente daquela forma, existe um tempo limite."

No caso do A-29 Super Tucano, esse tempo limite para voar invertido é de 60 segundos. "Não é um limite que existe por questões aerodinâmicas ou de funcionamento do motor, está mais relacionado com arrefecimento, com lubrificação dos sistemas."

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✈️ Poucos metros de distância

Sete aeronaves da Esquadrilha fazem demonstrações a poucos metros de distância uma da outra — Foto: Esquadrilha da Fumaça

As demonstrações da Esquadrilha exigem um nível de atenção elevado dos pilotos já que as acrobacias são realizadas próximas ao solo e ao público. Segundo o capitão, essa característica reduz a margem para correções caso algo fuja do planejado.

Outro ponto que, de acordo com Bezerra, torna o voo da Esquadrilha diferente de um convencional é o fato de serem sete aeronaves voando muito rápido e muito próximas umas das outras.

"A nossa aeronave, em muitos momentos, voa a menos de dois metros da aeronave que está do lado e a menos de três metros da que está à frente. Então, os aviões voam muito agrupados e, mais uma vez, a margem de erro é praticamente zero nesses momentos", explicou.

Para garantir a segurança, os pilotos passam por um treinamento altamente especializado. Cada integrante da Esquadrilha ocupa uma das sete posições e permanece nela.

Segundo Bezerra, a permanência na mesma posição permite que o piloto desenvolva memória muscular e aperfeiçoe as habilidades necessárias para executar sempre os mesmos movimentos com o menor número possível de variações.

"São sete posições de voo e cada piloto é especialista em uma posição. Não existe mudança entre as posições de voo durante a estadia de um piloto aqui na Esquadrilha da Fumaça. [...] E é isso que torna o nosso voo, apesar de muito específico, sempre muito seguro", afirmou.

🎨 Pintura

A-29 Super Tucano da Força Aérea Brasileira é usado pela Esquadrilha da Fumaça — Foto: Divulgação/FAB

A aplicação de tinta segue critérios técnicos rigorosos porque influencia diretamente na aerodinâmica e o peso da aeronave. Por outro lado, existe um aspecto de identidade visual e cultural organizacional da história da Esquadrilha da Fumaça representada na pintura.

De acordo com o capitão, um dos principais símbolos é o raio presente nas aeronaves desde 1960, que representa força, agressividade e poder aéreo.

Atualmente verde, o raio já foi vermelho e permanece presente na pintura da Esquadrilha desde a década de 1960. Em 2001, as aeronaves passaram a adotar as cores da bandeira brasileira.

Com a chegada do A-29 Super Tucano, a bandeira do Brasil passou a ser exibida na cauda dos aviões. Bezerra explicou que o modelo atual, que é utilizado pela Força Aérea Brasileira (FAB) nas missões operacionais, é camuflado. Ele tem uma pintura verde em uma tonalidade acinzentada.

"Essa aeronave, vista de cima, na vegetação, ela fica praticamente invisível. É muito difícil ver a aeronave camuflada no terreno. [...] A aeronave, com as cores que a gente utiliza na demonstração, facilita muito a visualização tanto para que o público possa enxergar a demonstração quanto para nós pilotos que estamos lá dentro e precisamos enxergar as outras aeronaves", disse.

Super Tucano A-29 usado pela FAB — Foto: FAB/Divulgação

Bezerra contou que durante o voo os pilotos não possuem sistemas ou equipamentos eletrônicos para mantê-los em uma posição precisa com uma aeronave ao lado da outra. "O que faz a gente manter a posição de forma estável, cravada, precisa, são os nossos olhos e as referências que a gente usa."

"São coisas que estão ali na fuselagem, então a gente alinha uma parte da asa com alguma coisa específica na pintura, a gente faz uma sobreposição de uma peça da aeronave com uma mudança de faixa, faixa amarela junto com a faixa azul, se eu alinhar a ponta da asa com aquela faixa, eu estou na posição precisa. Então, essa pintura bonita da Esquadrilha da Fumaça, ela também tem um recurso técnico que ajuda a gente a obter referências visuais para manter a posição durante a demonstração", complementou.

🔎 A fuselagem é o corpo de uma aeronave, projetado com formato aerodinâmico para abrigar a tripulação, passageiros, carga e os principais sistemas de voo. É a estrutura à qual se fixam as asas, a cauda e, na maioria dos modelos, os motores.

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💺 Assento ejetável

Assento ejetável do A-29 Super Tucano — Foto: Esquadrilha da Fumaça/Divulgação

As aeronaves da Esquadrilha contam com o assento ejetável, que é um dispositivo que permite que, no caso de uma emergência grave, em que o pouso ou não é seguro ou não é possível, o piloto pode abandonar a aeronave e voltar para o solo por meio de um paraquedas.

"É um dispositivo que, literalmente, expulsa de forma exclusiva todo o conjunto do assento juntamente com o piloto do avião para que ele possa retornar ao solo em segurança. Quando a gente fala que um assento é zero zero, o que a gente está dizendo é que o assento pode ser acionado com zero velocidade e zero altitude, ou seja, basicamente com o avião parado no chão", disse.

Segundo Bezerra, não são todos os aviões que possuem essa capacidade, inclusive, o T-27 Tucano, usado anteriormente pela Esquadrilha da Fumaça, também dispunha de um assento ejetável, mas com um sistema mais antigo, inferior e sem a capacidade zero zero disponível no A-29 Super Tucano.

"É uma evolução que traz ainda mais segurança tanto para o piloto quanto para o público que está ali assistindo a demonstração", afirmou.

Apesar de ser um recurso de segurança disponível na aeronave, a ejeção é um mecanismo extremamente agressivo, segundo o capitão, pois a força que o assento ejetável aplica ao piloto para que ele seja rapidamente expulso do avião ultrapassa de 15 a 20 vezes a força da gravidade.

Capitão Bezerra no A-29 Super Tucano — Foto: Esquadrilha da Fumaça

👨‍✈️ Preparação do piloto

Para integrar a Esquadrilha da Fumaça, o piloto passa por um período de preparação que dura entre seis meses e um ano e inclui mais de 90 voos de treinamento. Nesse processo, ele se adapta às exigências físicas e técnicas das demonstrações aéreas.

Algo que exige muito treinamento por parte dos pilotos é que, quando a aeronave está voando de cabeça para baixo, os comandos de voo se invertem, de acordo com o capitão.

"Então, literalmente, para o avião ir para a esquerda, a gente precisa levar o manche para a direita. No início do treinamento, isso é uma coisa extremamente desafiadora aqui para a gente. A gente demora um tempo para dominar essa técnica de voo invertido. Não é fácil essa adaptação", contou.

Segundo ele, o cérebro precisa 'trocar algumas peças' para que os pilotos fiquem adaptados. "Ao longo desse processo de treinamento, a gente passa a fazer isso de forma, digamos assim, intuitiva."

Parte dos pilotos da Esquadrilha da Fumaça — Foto: Esquadrilha da Fumaça/Divulgação

Cada manobra da Esquadrilha da Fumaça exige referências visuais diferentes dos pilotos. Em alguns momentos, a principal delas é a aeronave que segue à frente, conduzida pelo líder da formação. Em outros, eles usam o horizonte ou os instrumentos de bordo para manter a trajetória correta.

De acordo com o capitão, o A-29 Super Tucano conta com recursos tecnológicos que ajudam os pilotos a manterem precisão nas apresentações, mesmo em locais onde nunca voaram ou em regiões com relevo mais complexo.

"Às vezes, apesar de o piloto não estar plenamente ambientado a um cenário novo ali, uma cidade onde ele nunca voou, uma região muito montanhosa, olhando para os sistemas da aeronave, ele tem inúmeros recursos que vão fazer ele estar perfeitamente alinhado com o eixo que foi desenhado, com a altura que ele deve passar", explicou.

🪖 Traje anti-G

Arte da Esquadrilha da Fumaça que mostra os equipamentos de voo — Foto: Esquadrilha da Fumaça/Divulgação

De acordo com o Bezerra, o A-29 Super Tucano trouxe ganhos significativos em precisão, conforto e segurança em relação ao T-27 Tucano, aeronave utilizada anteriormente pela Esquadrilha da Fumaça.

"Além de mais rápida, a aeronave é mais precisa e, principalmente, mais segura porque tem muito mais recursos disponíveis para o piloto durante o voo. É uma cabine maior, uma cabine mais confortável, tem um sistema anti-G que ajuda o piloto a suportar manobras com a força G, a carga gravitacional maior, durante essas manobras", disse.

🔎 Força G (ou força-gravidade) é uma medida de aceleração que compara a força sentida por uma pessoa com a gravidade da Terra.

Cinco aviões da Esquadrilha da Fumaça sobrevoando Valinhos (SP) — Foto: Lavínia Gallo/EPTV

A aeronave conta com o traje anti-G, equipamento conectado à aeronave que ajuda os pilotos a suportar os efeitos das forças gravitacionais geradas durante as acrobacias.

O traje é composto por bolsas infláveis posicionadas na região do abdômen e das pernas. Durante as manobras, o sistema pneumático da aeronave infla essas bolsas para comprimir partes do corpo e ajudar o sangue a retornar ao cérebro, evitando que o piloto perca a consciência.

Conheça o A-29 Super Tucano da Esquadrilha da Fumaça — Foto: Arte g1

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Source: G1

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