As denúncias apontam uma suposta relação da empresa com o desmatamento ilegal na cadeia de abastecimento de carne bovina, inclusive em terras indígenas. Um levantamento usado para embasar as acusações associa fornecedores diretos e indiretos da JBS a cerca de 6,6 milhões de hectares com registros de desmatamento desde 1988.
Procurada, a JBS afirma que não teve acesso à íntegra do conteúdo das denúncias e, até a última atualização desta reportagem, não havia enviado um posicionamento.
Embora o levantamento considere registros de desmatamento entre 1988 e 2026, a maior parte da devastação identificada ocorreu antes de julho de 2008. Nas propriedades de fornecedores diretos da JBS, 98% da área desmatada foi derrubada entre 1988 e julho de 2008. Entre os fornecedores indiretos, que abastecem outras fazendas antes de o gado chegar à empresa, esse percentual foi de 96%.
Além da produtora de carne, as denúncias têm como alvo 12 de seus principais financiadores, além de advogados e contadores.
A TLC reúne organizações jurídicas, ambientais e de investigação que buscam coordenar ações jurídicas em diferentes países contra empresas e instituições financeiras envolvidas em possíveis violações ambientais.
Agora no g1
Para Octavio Ferraz, advogado e professor de Direito no King’s College London, que faz parte da coalizão, o objetivo é levar às autoridades responsáveis pela supervisão de instituições financeiras evidências sobre possíveis riscos associados à cadeia de fornecedores da JBS no Brasil.
“A ideia de usar a lei de lavagem de dinheiro para crime ambiental é nova. Essa lei foi feita para outros tipos de crime, como corrupção e tráfico de drogas. A inovação dessas ações é exatamente abrir uma nova frente e usar uma lei que já é conhecida para tentar combater o crime ambiental”, afirma.
A tese é que, diante de indícios de que recursos possam estar ligados a crimes ambientais, bancos e outros prestadores de serviços financeiros teriam a obrigação de aprofundar as verificações e, quando necessário, comunicar as autoridades.
“O material coletado a pedido da TLC já é o suficiente para acender a luz vermelha lá nos financiadores europeus, que têm uma obrigação de ficar atentos em relação a clientes que possam estar envolvidos com crime, seja crime ambiental, seja qualquer tipo de crime”, afirma Ferraz.
As denúncias atingem a JBS e instituições financeiras, gestoras, auditorias e um escritório de advocacia, entre elas Barclays, Standard Chartered, Banco do Brasil, Bank of Montreal, Rabobank, ING, BlackRock, EY, KPMG e Loyens & Loeff.
Estudo aponta desmatamento de 6,5 milhões de hectares
Do total de áreas identificadas pelo levantamento, 3.393.271 hectares estão associados a fornecedores diretos da JBS e outros 3.204.576 hectares a fornecedores indiretos. Na amostra analisada, mais de 80% dos fornecedores apresentaram registros de desmatamento em áreas protegidas, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs).
Para chegar aos resultados, o estudo, encomendado pela TLC, cruzou informações de Guias de Trânsito Animal (GTAs), registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dados de monitoramento do desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Como as GTAs registram o transporte de lotes de gado, e não o deslocamento individual de cada animal, os dados não permitem reconstruir com precisão todo o percurso dos bovinos. A própria coalizão reconhece que não é possível afirmar que um animal criado em uma propriedade com desmatamento ilegal tenha sido posteriormente abatido em um frigorífico da JBS.
Segundo a TLC, o cruzamento dessas informações permite identificar movimentações de gado entre propriedades e frigoríficos e apontar situações de maior risco de irregularidades. O levantamento também utiliza imagens de satélite para verificar a ocorrência de desmatamento nas áreas analisadas
O que diz o Banco do Brasil
Ao g1, o Banco do Brasil afirma que não teve acesso à denúncia mencionada nem a eventuais materiais relacionados à suposta ocorrência de lavagem de dinheiro.
"Cabe destacar que o Banco do Brasil mantém políticas, procedimentos e controles de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, em conformidade com a legislação e a regulamentação aplicáveis.
Em relação aos aspectos sociais, ambientais e climáticos, o BB adota procedimentos para identificar, avaliar, monitorar e gerir os riscos associados às suas operações e relacionamentos, observadas a regulamentação aplicável e suas normas internas.
Entre os anos de 2024 e 2025, esse conjunto de mecanismos permitiu ao Banco do Brasil evitar o direcionamento de R$ 44,4 bilhões em financiamentos para áreas não alinhadas às diretrizes socioambientais, conforme divulgado no Capítulo Estratégia de Conservação Ambiental do Caderno ASG dos respectivos anos.
O BB também observa o SARB 26, normativo da Autorregulação Bancária da Febraban que estabelece diretrizes para a gestão do risco de desmatamento ilegal na cadeia da carne bovina.
Sobre operações específicas, o Banco do Brasil não fornece informações legalmente protegidas por sigilo bancário", diz a empresa, em nota.
Source: G1
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