No balanço divulgado em outubro, a Samsung informou que a forte demanda por servidores contribuiu para elevar os preços de memórias em diferentes aplicações. A companhia também projetou, para 2027, uma demanda por memórias impulsionada pela IA superior à oferta da indústria e anunciou a intenção de ampliar contratos de vários anos.

Em relação ao Polo Industrial de Manaus (PIM), essa pressão pode aparecer antes de faltar uma peça. Antecipar compras exige capital de giro; manter estoques maiores aumenta despesas; substituir componentes depende de testes e aprovação técnica. Uma fábrica pode continuar produzindo e, ainda assim, enfrentar custos mais altos e menor margem.

A conexão com os eletrônicos de consumo

Os semicondutores não formam um mercado único. As memórias de alta largura de banda, conhecidas pela sigla HBM e utilizadas junto aos processadores de IA, têm características diferentes das memórias presentes em muitos eletrônicos de consumo. A relação entre esses mercados passa também pelas decisões dos fabricantes sobre quais produtos priorizar e onde ampliar a produção.

Em análise publicada em setembro, a TrendForce apontou que a preferência por memórias destinadas a servidores mantém a oferta pressionada. A consultoria também identificou restrições na oferta de memórias DRAM utilizadas em televisores e equipamentos de rede.

Há, portanto, fundamento para acompanhar possíveis efeitos sobre as TVs produzidas em Manaus. Isso não significa que as fábricas locais estejam sem componentes ou que haverá um reajuste uniforme dos aparelhos, mas exige atenção à dinâmica do mercado.

A própria TrendForce informou que, até aquela análise, os fornecedores vinham cumprindo os volumes trimestrais acordados com fabricantes de computadores e módulos de memória em 2026. Ao mesmo tempo, identificou marcas reduzindo a capacidade dos SSDs em modelos convencionais de computadores para conter custos. O consumidor pode encontrar mudanças nas especificações, além de aumentos de preço. Não há confirmação, nas fontes consultadas, de que essa estratégia esteja sendo adotada nos produtos fabricados em Manaus.

Os efeitos locais precisam ser apurados nos prazos de entrega, nas condições dos contratos e nos custos de cada operação. O cenário internacional é um sinal de atenção, não um diagnóstico de desabastecimento no PIM.

Manaus compra e também produz

A capital amazonense participa dessa cadeia em diferentes etapas. A TERA atua no encapsulamento e nos testes de semicondutores, processos posteriores à fabricação dos circuitos nas lâminas de silício. Segundo a empresa, em 2025 foram fornecidas soluções de armazenamento eMMC a fabricantes chineses de smartphones.

A parceria anunciada com a Biwin prevê ampliar a fabricação local de produtos de memória, promover transferência de tecnologia e desenvolver soluções para fabricantes de eletrônicos no Brasil. O resultado desse acordo deverá ser observado nos produtos efetivamente fabricados, nos clientes atendidos e nas competências incorporadas à operação.

Essas atividades agregam valor e exigem conhecimento industrial. Seu desenvolvimento, porém, não significa que Manaus já realiza o encapsulamento específico das memórias avançadas utilizadas nos grandes sistemas de IA.

A ADATA também amplia sua presença no Amazonas. A empresa anunciou que dobrou a área fabril na capital amazonense e prepara a transferência da operação de servidores realizada em parceria com a Giga Computing. A previsão divulgada é iniciar a operação na nova localização em dezembro de 2026, com montagem e testes sob contrato.

Esse modelo pode ampliar a participação de Manaus no fornecimento de infraestrutura digital. Mas fabricar o equipamento sob contrato, desenvolver seu projeto e produzir os chips que ele utiliza são atividades distintas. Reconhecer essas diferenças ajuda a dimensionar o avanço industrial sem atribuir à região capacidades ainda não demonstradas.

A produção de módulos de memória e SSDs pela Zilia em Manaus é outro exemplo dessa participação. A cidade possui uma base a partir da qual pode avançar, embora continue dependente de tecnologias e insumos externos.

O valor que permanece aqui

A ampliação da produção local não elimina a necessidade de assegurar componentes no exterior. Produzir também exige observar as regras do Processo Produtivo Básico (PPB) aplicáveis a cada produto. Cumprir as etapas industriais exigidas e desenvolver novas competências tecnológicas são dimensões relacionadas, mas uma não comprova automaticamente a outra.

A expansão das linhas pode abrir espaço para mais atividades de engenharia, desenvolvimento e qualificação em Manaus. Conforme a operação, isso envolve montagem eletrônica, testes, materiais, controle térmico, qualidade e integração de sistemas. As necessidades de cada fábrica devem orientar a aproximação entre empresas, universidades e institutos tecnológicos, como o Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), o Instituto Eldorado e o CESAR.

Para acompanhar esse avanço, vale perguntar quais processos foram incorporados, que decisões técnicas passaram a ser tomadas na região e se os fornecedores locais conquistaram novos clientes. O volume produzido conta parte da história, porém, o conhecimento acumulado é um componente importante para avaliar sua continuidade.

Manaus pode encontrar compradores na mesma expansão que encarece alguns de seus insumos. Administrar essa dependência e ampliar as competências locais serão tarefas simultâneas. Na disputa pelos chips, importa garantir o componente que chega e aumentar o valor do produto que sai.

*Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

Source: G1

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