O Brasil tem mais de 8 mil quilômetros de costa, esse é um número que usamos com frequência para demonstrar o tamanho do nosso potencial ligado ao mar, mas essa informação não responde quanto desse potencial conseguimos transformar em desenvolvimento econômico? Porque ter costa é uma condição geográfica, mas construir uma economia a partir dela é outra coisa.
Ao longo dos anos trabalhando com cidades, aprendi que vocação, sozinha, não resolve muita coisa. Há regiões que concentram grandes empresas, infraestrutura e atividades econômicas importantes, mas não conseguem aproveitar toda a capacidade de gerar novos negócios a partir desses ativos. Com o mar acontece algo parecido. Uma cidade pode ter porto, indústria naval, operações offshore, pesca e turismo e, ainda assim, boa parte dessas atividades funcionar de maneira isolada. Empresas que poderiam fazer negócios entre si não se conhecem. Fornecedores não conseguem acessar novos mercados. Soluções desenvolvidas em outros setores deixam de chegar a indústrias que poderiam utilizá-las.
É por isso que, para mim, a discussão sobre economia azul é menos sobre aquilo que uma cidade tem e muito mais sobre aquilo que ela consegue movimentar a partir do que já existe.
Existe um risco quando surge uma agenda econômica nova: começamos a tratá-la como se fosse um setor independente de tudo o que já existe, mas eu não vejo a economia azul dessa maneira. Quando uma operação portuária contrata uma solução de inteligência artificial, existe uma oportunidade para o setor de tecnologia. Quando uma indústria naval moderniza seus processos, abre espaço para empresas de automação, engenharia e serviços especializados. Quando uma companhia investe em descarbonização, movimenta negócios ligados à energia, infraestrutura e consultoria.
Uma única atividade econômica relacionada ao mar pode mobilizar dezenas de outras empresas que, à primeira vista, não se identificam como parte da economia azul. E talvez esteja justamente aí uma das maiores oportunidades para o Brasil.
Toda vez que estou em algum palco falando sobre economia azul, procuro provocar uma reflexão: quais empresas e setores da nossa economia ainda não perceberam que podem encontrar novos negócios a partir do mar?
Estamos acostumados a pensar infraestrutura como algo físico: estradas, portos, redes de energia e logística. Tudo isso é indispensável, o diferencial está na capacidade de aproximar empresas, compradores, fornecedores, investidores e tomadores de decisão.
Uma grande indústria conhece as soluções desenvolvidas fora de sua cadeia tradicional de fornecedores? Uma empresa de tecnologia sabe quais problemas poderia resolver no setor portuário? Os investidores conseguem identificar projetos com potencial de crescimento nesse mercado? E as pequenas e médias empresas conseguem acessar as oportunidades geradas pelos grandes investimentos?
Quando essas respostas são negativas, existe um custo econômico. Às vezes temos uma empresa precisando de determinada solução, outra capaz de fornecê-la e capital disponível para viabilizar o projeto. Mas esses três elementos simplesmente não se encontram.
Esse é um desafio que também encontramos no universo das cidades inteligentes. Não basta atrair tecnologia ou anunciar grandes projetos, é preciso construir um ambiente em que as soluções encontrem demandas reais, modelos de negócio viáveis e capacidade de investimento.
Uma cidade competitiva não é apenas aquela que consegue atrair investimentos, é também aquela que consegue fazer esses investimentos gerarem novos negócios ao seu redor.
Outro aprendizado importante é que as cidades não precisam reproduzir o mesmo modelo de desenvolvimento. Uma cidade portuária terá determinadas oportunidades. Uma região com indústria naval consolidada terá outras. Territórios ligados ao turismo, à pesca ou à energia poderão desenvolver mercados diferentes. O importante é compreender quais atividades já possuem força econômica, quais demandas estão surgindo e como outros setores podem participar desse movimento.
Um investimento em infraestrutura portuária, por exemplo, pode movimentar fornecedores de equipamentos, serviços de engenharia, tecnologia, manutenção, logística e consultoria. O desafio está em ampliar os efeitos econômicos desses investimentos, permitindo que mais empresas participem das oportunidades geradas.
Não precisamos produzir mais um diagnóstico dizendo que existe esse potencial, isso nós já sabemos. Precisamos discutir como transformá-lo em contratos, investimentos, expansão de mercados, desenvolvimento para os territórios, além de qualidade de vida para os cidadãos.
Precisamos colocar quem decide na mesma conversa
A indústria naval tem seus encontros. O setor portuário tem os seus. Energia, tecnologia, mercado financeiro e infraestrutura também possuem espaços próprios de discussão. Esses ambientes são importantes, mas existe uma oportunidade que aparece justamente no encontro entre eles.
Uma empresa de energia pode encontrar novos clientes na indústria naval. Um operador portuário pode identificar soluções desenvolvidas para outros segmentos industriais. Uma companhia de tecnologia pode descobrir demandas que ainda não fazem parte de sua carteira de negócios.
Para que isso aconteça, precisamos colocar na mesma conversa não apenas especialistas, mas também quem compra, quem fornece, quem investe e quem toma decisões.
É essa visão que temos buscado colocar em prática no Tomorrow.Blue Economy Niterói, ao criar um ambiente em que diferentes setores possam identificar oportunidades comerciais, desenvolver relacionamentos estratégicos e descobrir onde seus negócios se encontram.
Porque uma economia não se fortalece apenas quando surgem novas empresas. Ela também cresce quando as empresas que já existem encontram novos mercados, ampliam suas operações e passam a fazer negócios que antes não faziam.
O Brasil já tem o mar. Temos empresas, infraestrutura, conhecimento e capacidade produtiva. Nosso próximo passo é fazer com que esses ativos conversem mais, negociem mais e produzam mais oportunidades.
Afinal, uma potência azul não se constrói apenas com aquilo que está diante da costa, mas com os negócios que somos capazes de desenvolver a partir dela.
Sobre o Tomorrow.Blue Economy Niterói
O Tomorrow.Blue Economy Niterói é uma plataforma de conexão e desenvolvimento de negócios dedicada à economia azul, realizada pelo iCities. Em sua terceira edição, o encontro reúne empresas, investidores, lideranças empresariais, representantes do poder público, especialistas e diferentes setores produtivos para estimular conexões estratégicas, oportunidades comerciais e investimentos nas cadeias econômicas ligadas ao mar. Em 2026, o evento acontece nos dias 25 e 26 de novembro, na Arena Niterói, conectando indústria, portos, energia, tecnologia, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento territorial.
Source: G1
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