Enquanto era levado para uma área afastada da cidade, o motorista pulou do carro na Avenida Getúlio Vargas e pediu ajuda a moradores. Imagens da câmera de segurança do carro registraram desde o momento da abordagem na Gameleira, quando os três suspeitos se apresentaram como policiais, o percurso até a Avenida Getúlio Vargas e o abandonaram o carro próximo ao Horto Florestal. (Veja vídeo acima)

O motorista nega envolvimento no assalto citado pelos suspeitos. "Ia fazer seis meses que estava com esse carro. Trabalho assim [corridas por aplicativo] há cinco anos e nunca tinha passado por isso. Faço 50 corridas por dia e não consigo lembrar de todos os passageiros, mas quero provar minha inocência e quero justiça pelo que fizeram", afirmou a vítima em entrevista ao g1 e à Rede Amazônica Acre. O motorista pediu para não ter a identidade divulgada. (Confira o relato completo mais abaixo)

A Polícia Civil do Acre negou que os homens que aparecem nas imagens são policiais civis, contudo, apura internamente a situação. A Polícia Militar (PM-AC) confirmou que a corregedoria instaurou um procedimento administrativo para investigar se os suspeitos são militares. Segundo a comandante, coronel Marta Renata, se for comprovado que os homens são policiais militares deve ser aplicado o regulamento militar.

A caminhonete usada pelo trio está acautelada para a Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Em nota, a Polícia Civil afirmou que o veículo integrou temporariamente a frota da instituição, por meio de cessão em caráter provisório, tendo sido devidamente restituído ao proprietário em 5 de janeiro de 2024. Contudo, em razão de uma falha administrativa, a correspondente baixa não foi realizada no sistema.

Motorista ficou com vários ferimentos após pular de veículos para escapar de sequestro — Foto: Arquivo pessoal

Abordagem

O motorista relatou ao g1 e à Rede Amazônica Acre que foi abordado após deixar uma passageira no bairro Cidade Nova, na segunda. Ele estava parado na Gameleira aguardando uma corrida quando um dos homens desce de uma caminhonete apontado uma arma e ordenando que ele saísse do carro com as mãos na cabeça.

"Um deles já encostou com a arma e falou: ‘Desce com a mão na cabeça’. Eu não estava entendendo nada, mas temendo que algo pior acontecesse, obedeci. Era por volta de 12h e em frente ao ponto de táxi na Gameleira, algumas pessoas viram, mas ninguém fez nada com medo", afirma o motorista de app.

Conforme a vítima, os suspeitos não usavam uniformes, mas estavam armados e se apresentaram apenas como policiais, sem especificar a instituição. Após retirar o condutor do carro, os suspeitos fizeram uma revista no veículo e o colocaram novamente no carro de aplicativo.

Dois dos suspeitos também entraram no veículo, um assumiu a direção enquanto o outro foi no banco traseiro com a vítima. O terceiro suspeito ficou na caminhonete e seguiu o carro durante o trajeto.

"A partir do momento que a gente saiu da Gameleira, achava que iam me levar para uma delegacia. Então, ali eu tava com minha cabeça tranquila, que ia me levar pra uma delegacia, tudo bem. A partir do momento que começaram a fazer ameaças, que tinha participa de um roubo, não sei aonde, que tinha levado umas meninas não sei pra onde, me acusando de várias coisas que eu não fiz, de uns celulares, de uns ouros. Eu já sabia que não iam me levar pra uma delegacia, que tava acontecendo alguma coisa e eles iam me matar inocentemente, entendeu?", recorda a vítima.

Motorista de app diz ter pulado de carro para escapar de sequestro por policiais

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Ameaças e agressão

Dentro do carro, um dos suspeitos explica para a vítima do que se trata a abordagem. O áudio e as imagens são da câmera de segurança do veículo. "Seguinte, cara, vou te passar o papo reto. Tu tava (sic) no roubo lá [no residencial] Bonsucesso há duas semanas", diz.

A vítima então pergunta: "Eu?". O suspeito responde que sim. Outro suposto policial diz que há imagens da vítima e do carro.

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"Vamos começar a conversar para ver se dá certo para ti porque, por enquanto, está dando ruim. Tem uns 20 polícias atrás de ti, só para ter uma ideia de como a tua situação não está boa. Nós queremos os telefones que foram levados de lá, os três Iphones e o ouro que levaram", afirma um dos suspeitos.

Durante o diálogo, a vítima diz que não está entendendo nada, que está com a cabeça tranquila e nega envolvimento no crime. "Tu vai começar a entender, vou te perguntar de novo antes de começar a te bater. Ninguém nem vai te bater aqui, vamos só te levar para o dono do material que tu arrochou lá", afirma um dos suspeitos.

Ainda durante a conversa, os supostos policiais alegam que o motorista de aplicativo levou os criminosos até o local do roubo e deu apoio na fuga. O condutor nega a todo momento envolvimento na ocorrência.

"Estou perdendo a paciência contigo, tem imagens. Vocês pediram para apagarem as imagens, mas a gente conseguiu pegar. A gente recuperou. Se tu entregar as coisas e não ir mais atrás do pessoal, a gente vai ficar tranquilo. Vou logo te dizer uma coisa: tu não vai ser liberado, se não colaborar", acusam.

Incrédulo com a situação, o motorista de aplicativo chega a perguntar se os suspeitos são realmente policiais. "Tu acha que a gente ia ter esse tanto de informação se não fossemos polícia?. Sabia que tem um sistema que identifica só pela foto? Foi bem facinho te identificar", diz.

Enquanto um dos suspeitos responde à vítima, é possível ouvir o outro homem ao telefone indicando que vão para uma estrada isolada. "Tu vai falar onde está essa parada ou vai querer ir com a gente?", questiona um dos suspeito.

Nesse momento, a vítima diz que não está entendendo nada e é possível ouvir um tapa sendo desferido. "Tu vai começar a entender. Vou logo te dizer: tu vai rodar (sic). Tu com essa tua esperteza vai rodar, vou logo te avisar. Estamos indo para a estrada, já tem até teu lugar certo. Tu vai rodar, infelizmente", conta um dos suspeitos.

Fuga do carro

Após cerca de 20 minutos de percurso, os suspeitos exigiram que os telefones do motorista fossem desbloqueados. Ele obedece. "Vou te colocar no saco só para começar. Vou te colocar só pra ver se tu lembra de alguma coisa. Se tu não lembrar, vai ficar pior. Vou te passar o sal porque não quer ajudar", avisam.

Ao chegar na Avenida Getúlio Vargas, próximo à Procuradoria-Geral do Estado (PGE-AC), a vítima abriu a porta do carro e se jogou na rua. O condutor freia bruscamente e o outro suspeito xinga. "Fecha a porta. Estamos com os telefones dele e os dados. Bora, a gente abandona o carro", relatam.

Ao g1, a vítima disse que tentou pedir ajuda no local, mas o segurança não quis socorrê-lo. Foi então que ele atravessou a rua e correu até o Centro de Estudos de Línguas (CEL) e lá o segurança chamou a Polícia Militar.

Motorista de aplicativo pulou do carro em movimento durante sequestro — Foto: Reprodução

"Graças a Deus consegui abrir a porta do carro e pular. E até nas filmagens do carro, ele fala: 'Fecha a porta, fecha a porta rápido', como se não quisessem ser visto por ninguém. Só que eles não sabiam que o carro tava filmando todo o tempo. Desde o começa da abordagem até o fim", recorda.

Por conta da queda, o jovem sofreu diversas ferimentos e precisou de atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ele também mudou de endereço com medo de que os suspeitos o procurem novamente.

A vítima acredita que há uma confusão quanto alguma corrida que fez para o Residencial Bonsucesso.

"Se realmente tem essa filmagem lá minha saindo do carro e entrando, beleza. O certo é me levarem na justiça pra eu provar essa imagem. O que eu tava fazendo nesse dia. Se fui eu mesmo, entendeu? E eu quero justiça porque se me levam, iam me torturar até a morte de uma coisa que não sei, que não fiz, não conheço essa pessoa, não sei desse assalto, não tô sabendo de nada. Eu ia morrer inocentemente. De todo jeito ia ter essas imagens do carro. Quero provar a minha inocência", finalizou.

Roubo em casa

O delegado-geral da Polícia Civil, Pedro Paulo Buzolin, confirmou que há uma ocorrência registrada de um roubo em uma residência no Bonsucesso. Ele destacou que o carro usado no crime é semelhante ao veículo utilizado pelo motorista de aplicativo, contudo, não há evidências de que o carro da vítima tenha participado do assalto.

"Investigamos uma ocorrência, onde foi utilizado um veículo semelhante ao que o motorista de aplicativo utilizava no momento em que foi sequestrado. Mas, isso não confirma que o veículo deste motorista é o veículo utilizado no crime. São diversos veículos semelhantes. É uma prática comum hoje em dia, inclusive, pessoas adquirirem veículos, principalmente veículos elétricos. E alugarem para terceiros para que esses exerçam a profissão de motorista de aplicativo", descreveu.

O delegado confirmou também que a caminhonete utilizada pelos suspeitos integrou temporariamente a frota da instituição.

"Ele foi acautelado para a instituição de forma provisória, mas, foi restituído ao proprietário no dia 5 de janeiro de 2024. Então aí, há quase 3 anos esse veículo não íntegra mais a frota da instituição. Agora a gente vai tentar buscar a cadeia dominial deste veículo para saber se foi vendido a outra pessoa, em poder de quem estava", defendeu.

Nota na íntegra da Polícia Civil do Acre

A Polícia Civil do Estado do Acre informa que instaurou investigação para apurar as circunstâncias do sequestro de um motorista de aplicativo, ocorrido mediante a ação de indivíduos que teriam se identificado como policiais.

A vítima já foi ouvida, e equipes de investigação estão realizando diligências com o objetivo de identificar os envolvidos, esclarecer a dinâmica dos fatos e reunir elementos que contribuam para a elucidação do crime.

Em relação à caminhonete utilizada pelos suspeitos, a Polícia Civil esclarece que o veículo integrou temporariamente a frota da instituição, por meio de cessão em caráter provisório, tendo sido devidamente restituído ao proprietário em 5 de janeiro de 2024. Contudo, em razão de uma falha administrativa, a correspondente baixa não foi realizada no sistema.

A instituição ressalta que, até o momento, a análise das imagens apresentadas pela vítima e daquelas obtidas durante as investigações não apontou a participação de nenhum policial civil na ação criminosa. Também não existem, até agora, elementos que confirmem que os autores pertençam a qualquer instituição policial.

A Polícia Civil reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência e a segurança da população, destacando que todas as circunstâncias do caso serão rigorosamente apuradas e que os responsáveis serão identificados e responsabilizados na forma da lei.

Pedro Buzolin
Delegado-Geral de Polícia Civil do Acre

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Source: G1

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