Os registros envolvem integrantes de facções que obtiveram armas por meio de registros de CAC e também pessoas habilitadas no sistema que passaram a abastecer o crime organizado com armas e munições.
Foram analisados processos, boletins de ocorrência, inquéritos e reportagens para o estudo do Sou da Paz.
Materiais apreendidos durante operação "Ludíbrio" em 2022 em Uberaba. — Foto: Polícia Federal/Divulgação
"Dois padrões se repetem. No primeiro, pessoas que já tinham registro, ou que foram recrutadas por facções para obtê-lo, compram armas e munições legalmente e as desviam para criminosos", afirma Bruno Langeani, consultor sênior do instituto. "No segundo, integrantes de grupos criminosos tiram o registro em nome próprio, às vezes com documentos falsos, e usam o arsenal comprado de forma legal em suas atividades."
Os casos envolvem o Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV), milícias, grupos de extermínio, facções regionais e quadrilhas especializadas em roubos a banco. Eles estão distribuídos por 21 estados. São Paulo lidera com 18 registros, seguido por Espírito Santo (11) e Rio de Janeiro (10).
O que são os CACs
PF prende suspeitos de fraudar registros e compra de armas para CACs no RJ
Os CACs existem há décadas no Brasil. A categoria permaneceu prevista na legislação após a aprovação do Estatuto do Desarmamento, sancionado pelo presidente Lula em 2003.
Liderança do CV com registro de armas
'Linea Rubra': operação contra o Comando Vermelho bloqueia R$ 33,6 milhões e prende 5
Documentos analisados pelo Sou da Paz indicam que ele possuía certificados de registro de armas emitidos pelo Exército. Em um processo analisado pelo g1, policiais relataram que armas apreendidas em Rio Claro estavam registradas em seu nome.
Mais casos pelo país
Levi foi preso em casa, em Assunção — Foto: Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai/Divulgação
O levantamento reúne episódios em diferentes regiões.
Na fronteira com o Paraguai, Levi Adriani Felício, apontado como integrante da cúpula do PCC, possuía certificado de CAC. Ele chegou a ser preso em 2019 no país vizinho. Foi acusado de ser um dos principais fornecedores de armas e drogas para facções criminosas brasileiras.
Armas foram apreendidas em Campina Grande — Foto: Ewerton Correia/TV Paraíba
Em Santos, Raphael Batista, o "Aprontinho", foi investigado por usar suas cotas de CAC para abastecer o mercado ilegal.
Latrell Brito cumula penas que ultrapassam 50 anos de prisão — Foto: Reprodução/Redes Sociais
O caso Bazzana
Empresário de Americana é preso por suspeita de vender armas a facção criminosa do RJ
Preso em 2025 em uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro, ele é suspeito de fornecer armas, carregadores e munições ao Comando Vermelho, no estado fluminense.
O Sou da Paz afirma que a apuração também menciona integrantes da família Bazzana em procedimentos relacionados à documentação de armas usadas por investigados ligados à facção. A defesa nega as acusações.
Eduardo Bazzana foi preso suspeito de fornecer armas a facção do Rio de Janeiro — Foto: Reprodução/EPTV
Alcance nacional
O instituto afirma que o levantamento reúne apenas casos tornados públicos. "Trabalhamos apenas com casos que vieram a público e nos quais as autoridades informaram que o investigado era CAC. O número real é certamente maior, e por isso não é possível medir com precisão quanto o problema cresceu", diz Bruno Langeani.
Segundo ele, os dados mostram expansão geográfica e diversificação dos grupos envolvidos. "A primeira coisa que os dados mostram com segurança é que a abrangência geográfica aumentou: os casos públicos passaram de seis estados, entre 2016 e 2019, para 20 estados, entre 2023 e 2026."
"A segunda é que se diversificou o perfil de quem usa esse canal. Além das facções do tráfico, como PCC e Comando Vermelho, aparecem quadrilhas do novo cangaço, milícias, grupos de extermínio, pistoleiros e grupos de grilagem de terras."
* Consultor do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani. — Foto: Reprodução/TV Globo
"A terceira é que o material desviado ficou muito mais grave, após os decretos do Bolsonaro: há casos de uma única pessoa repassando várias pistolas ou dezenas de milhares de munições de uso restrito", falou Langeani. "O presidente Lula voltou com a antiga classificacao de armas de calibre permitido e restrito. E reduziu o quantitativo de armas e municoes, ao mesmo tempo que passou a exigir mais comprovacoes de CACs."
Sobre a fiscalização, Langeani afirma: "A fiscalização era do Exército até 2025. Ano passado passou para a PF [Polícia Federal]. Estes são os fiscalizadores com competência principal, mas quando entram crimes de tráfico de arma, comércio ilegal e fabricação ilegal, aí são as polícias civis estaduais."
O g1 procurou as secretarias da Segurança Pública de São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro, além da Polícia Federal e do Exército Brasileiro e aguarda posicionamento.
Raio-x do levantamento
Reprodução de levantamento feito pelo Sou da Paz sobre envolvimento de CACs com o crime organizado nos últimos 10 anos. — Foto: Reprodução/Sou da Paz
Os 92 casos foram identificados em 21 estados. São Paulo lidera com 18 registros, seguido por Espírito Santo (11) e Rio de Janeiro (10).
A série histórica contabiliza os 92 casos:
2016: 4
2017: 1
2018: 4
2019: 2
2020: 2
2021: 6
2022: 13
2023: 19
2024: 19
2025: 17
2026: 5 (até início de outubro)
Total: 92 casos
O levantamento identificou casos em todas as regiões brasileiras.
Levantamento do Sou da Paz mostra acúmulo de casos de CACs envolvidos com o crime organizado por estados e regiões de 2016 a 2026. — Foto: Reprodução/Sou da Paz
São Paulo: 18
Espírito Santo: 11
Rio de Janeiro: 10
Rio Grande do Sul: 7
Ceará: 6
Paraná: 5
Bahia: 4
Distrito Federal: 4
Goiás: 4
Minas Gerais: 3
Paraíba: 3
Pernambuco: 3
Santa Catarina: 2
Maranhão: 2
Rio Grande do Norte: 2
Mato Grosso do Sul: 2
Amazonas: 2
Sergipe: 1
Mato Grosso: 1
Roraima: 1
Tocantins: 1
Source: G1
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